Tomo da Traça: A Passagem

Salve pessoal do Gaveteiro! Meu nome é Charles Lindberg, mas vocês podem me chamar de Coruja. A partir de hoje estarei contribuindo mensalmente com resenhas literárias variadas para o site, e espero que meu gosto não os chateie até a morte! Não tenho muito a dizer sobre a minha pessoa, mas estou certo de que os chefes vão deixar meus links aqui em algum lugar (risos). Para começar esta (quase) nova coluna, decidi falar sobre um dos meus livros de ficção científica favoritos: A Passagem, um título extraordinário que certamente poderia ser mais conhecido aqui pelo Brasil. Então, vamos conhecer?

Amy Harper Bellafonte, a Garota de Lugar Nenhum, nasceu uma menina normal em um momento complicado na vida de sua mãe solteira. Ninguém tinha como saber como, quando ou por que ela seria uma peça vital na salvação da humanidade.

À esquerda a capa da primeira edição brasileira; à direita, a segunda, relançada pelo selo Arqueiro da Sextante. Gostaria de ter essa segunda, ó, achei mais zica.
À esquerda a capa da primeira edição brasileira; à direita, a segunda, relançada pelo selo Arqueiro da Sextante. Gostaria de ter essa segunda, ó, achei mais zica.

Em A Passagem, romance que abre meio que por acaso uma trilogia ainda sem título de Justin Cronin, o leitor é levado a acompanhar com detalhes científicos e geográficos a descoberta, pesquisa e vazamento de um vírus que transforma seus hospedeiros humanos em temíveis criaturas vampirescas e cheias de estranhas idiossincrasias conhecidas como Virais, ao mesmo tempo em que acompanha a jornada de uma dupla de policiais, Bradford Wolgast e Philip Doyle, encarregados de encontrar e sequestrar cobaias humanas, até seu envolvimento inevitável com a então criança Amy Bellafonte, momento em que tudo começa a desandar.

O romance é tão extenso em tempo corrido quanto em número de páginas, e se divide em duas partes principais igualmente complexas e ricas em elenco. Após os eventos subsequentes à fuga dos primeiros dez Virais, o passa por uma transformação gradual, violenta e brutal, e o livro passa para a segunda parte, que ocupa quase três quartos do volume, iniciando-se no ano de 92 D.V. (Depois do Vírus).

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Podendo por vezes ser cansativo e demasiadamente exigente com a atenção do leitor em relação a nomes de personagens e lugares, este sci-fi épico recompensa bem demais os leitores mais dedicados com uma visão clássica muito bem explorada do pós-apocalíptico e desenvolvimentos de múltiplos backgrounds que lhe deixam cada vez mais empolgado. A narrativa alterna entre a onisciência em terceira pessoa e ocasionais artigos, cartas e textos de diários para cobrir informações necessárias e longas passagens de tempo.

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Apesar de contar com algumas personagens estereotipadas e a desvantagem de você não ter certeza de quem são seus protagonistas até a metade do livro, é fácil se apegar aos seus heróis e à sua jornada após algum tempo de assimilação. O realismo social, a descrição e história de diversos ambientes e o desenvolvimento do enredo são tão naturais e bem passeados que, eventualmente, você acabará se perdendo nas páginas, torcendo ora contra, ora a favor de alguém, e sempre esgueirando para o próximo cenário no desenrolar imprevisível dos fatos.

Autor da obra, Justin Cronin, hoje com 53 anos.
Autor da obra, Justin Cronin, hoje com 53 anos.

Um detalhe muito legal deste livro é que o autor fez uma pesquisa de campo, visitando pessoalmente cada um dos lugares que pretendia usar na estrada de seus personagens, e isso dá um tratamento sem igual à sua visão de mundo pós-apocalíptico. A sociedade, a cultura, o funcionamento das cidades, o abandono, a relação dos personagens com coisas como armas, livros, energia elétrica e coisas do passado que se perdem na linha entre história e lenda são um ponto altíssimo nesta narrativa sem igual, que é um meio-termo ideal entre o dinamismo da literatura contemporânea e o trato da clássica, entre a ação e o drama, a violência e o romance. Isso se estende aos Virais, que se tratam de uma releitura futurista e biológica do que conhecemos misticamente como vampiros, que, apesar de muito diferirem de sua contraparte aristocrática em comportamento e aparência física, mantêm muitas referências clássicas que servem como pontos-chave ao longo do roteiro. 

O romance que Stephen King descreve como “um livro com a força dos épicos” (e realmente é difícil descrever de outra forma) teve os direitos para a adaptação cinematográfica adquiridos por Ridley Scott (Alien, Blade Runner, Gladiador, e, mais recentemente, Êxodo: Deuses e Reis) antes mesmo da própria conclusão, mas até agora pouco foi falado a respeito. O segundo volume da saga, Os Doze, já foi lançado em 2012, e o terceiro, A Cidade de Espelhos, deve ser lançado em 2016.

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Dedicatória do livro

Publicado em 2010, A Passagem é um pós-apocalíptico precioso na literatura contemporânea, especialmente pelo resgate adulto, realista e complexo que dá a um gênero cada vez mais ligado à simplicidade juvenil dos chamados romance YA (young adults). O livro em si pesa mais de um quilo, mas disfarça sua extensão de 816 páginas com um texto bem organizado impresso em páginas finas. Se você é fã de terror, fantasia e sci-fi, e adoraria ver tudo isto numa mesma história, esta é uma leitura superindicada. E se você é ligado nos YA distópicos que andam avassalando o mercado editorial ultimamente, mas está em busca de alguma coisa mais “séria” na mesma linha, A Passagemé o livro que você está procurando.

  • Felipe Loureiro

    Muito boa a resenha, Charles!
    Eu já estou curioso com esse livro há bastante tempo, não sei porque não comprei ainda, pra falar a verdade, rs. Mas a resenha só me deixou ainda mais curioso! =)

    • Ha! Obrigado, Felipe. Engraçado que você fez esse comentário no dia do meu aniversário (sim, 14 de maio! \o/) e eu só vim olhar agora, mais de dez dias depois. XD

      Leia! Recomendo demais. Não sei por que ainda não comprei a sequência, também. É que é tanta coisa pra ler urgente que acaba sendo impossível não protelar um pouco outras leituras que a gente realmente quer.

      • flavia

        Leia a sequencia: Os Doze. Cronim segue em sua trilogia com maestria!! São meus livros de cabeceira! <3

  • Èlcio Tavares

    Boa noite. Porque o título é A Passagem?